Monday, May 31, 2010

LUIZ ALFREDO GARCIA-ROZA


THE SINGULARITY OF BEING A BRAZILIAN AUTHOR
Brazilian crime novelist   Luiz AlfredoGarcia-Roza has the distinction of writing elegant prose in Portuguese, a language few people other than Brazilians and Portuguese readers understand. His      main character, Inspector Espinosa, is a a great reader and a man of  refined sensibilities. temperamentally he is closer to the British gentleman detective  Lord Peter Wimsey than to its rougher American counterparts. Unlike Wimsey, Espinosa is a public servant. He has no Oxford diploma, no  trust fund and no attitude. His mind is his weapon. His home is Rio de Janeiro,  whose great  beauty and and great  problems are part and parcel of its irresistible appeal. He is the universal urban man who would be at home in New York, Paris or Geneva and he cuts across cultural lines as real cariocas do--gracefully and with enormous charm.
             Garcia-Roza's writing is refreshingly free of the exoticism and magical realism of better known Latin writers.  It is Spartan in the sense of its self-disciplined restraint   and clarity. This in no way implies linguistic impoverishment, but it points to a departure from the exuberance of  Jorge Amado and the metaphysical silliness of Paulo Coelho. It deserves  a larger audience in the United States.

The following translation is mine and the errors are mine. My text is clunky. It  lacks the lovely fluidity of Garcia-Roza's responses, but it is meant as a guide rather than as a literal rendition of his words. 
1.  O que significa ser um autor brasileiro? What does it mean to be a Brazilian author?
Significa ser autor em um país do Terceiro Mundo cujo idioma é o português que tem pouco ou nenhum acesso ao mercado cultural do Primeiro Mundo; por outro lado, significa ser um autor ainda não viciado por esse mercado e com maior liberdade e possibilidade de quebrar os cânones estabelecidos por ele. Significa também ser autor em um país com uma extensão territorial quase igual a dos Estados Unidos, com quase duzentos milhões de habitantes e uma riqueza cultural considerável. O termo “autor brasileiro” não tem um referente uniforme, mas aponta para uma grande diversidade que abarca desde o autor da Amazônia brasileira, no extremo norte, até o gaucho dos pampas, no extremo sul; distantes quase dez mil quilômetros um do outro, sendo que entre esses extremos temos o eixo Rio - São Paulo: uma concentração urbana na região sudeste com mais de quarenta milhões de habitantes e uma grande diversidade cultural. O que confere ao termo “autor brasileiro” um significado indiscutível e que nos permite empregar o termo no singular é a língua portuguesa. Rica e bela.
It means being an author in a Third World country whose language  is Portuguese, which has little or no access to the literary market of the First World. On the other hand, it means being an author who has not been influenced by that market and who has greater freedom and possibilities to break with its established canons. It also means being an author in a country whose territory is nearly the size of that of the United States with almost two hundred million people and considerable cultural riches. The words “Brazilian author” do not have a single meaning. They point to the diversity that encompasses an author from the Amazonian region, in Brazil’s extreme north as well a  gaucho from the pampas, in the extreme south. Nearly ten thousand kilometers away, in the Rio-Sao-Paulo area, there is the an urban concentration of forty million people and great cultural diversity. It is the rich and beautiful  Portuguese language  that gives  the term “Brazilian author” its indisputable meaning and allows us to use it as in the  singular.
2.   Qual e a mais potente ferramenta um autor pode usar para exprimir a dimensao espacial?  What is the most powerful tool a writer can use to express a sense place?
  A única ferramenta que um autor/escritor pode utilizar para exprimir, seja a dimensão espacial seja qualquer outra coisa, é a palavra escrita. E a natureza dessa expressão vai depender da língua que ele tiver escolhido (que nem sempre é sua língua materna) e o estilo que é o seu próprio e único, sem o que ele não é um autor.

The only powerful tool an author/writer can use to express either a sense of place or anything else is the written word. And the nature of this expression will depend in the language he has chosen (which is not not always his native language) an his style without which he would not be an author  is uniquely his own.

3.O que o delegado Espinosa tem em comum com o filosofo do mesmo nome? What does Inspector Espinosa have in common with the philosopher whose name he shares?
    O delegado Espinosa e o filósofo Espinosa têm em comum o senso ético e a crença no poder da razão. Atributos esses que também estão presentes no personagem Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe em Assassinatos na rua Morgue (1841) considerado o criador do gênero policial em literatura.
Tenho pelo filósofo Baruch de Espinosa (1632-1677) grande admiração tanto pela sua integridade pessoal e seu inabalável senso ético como pela sua absoluta confiança no poder da razão como forma de superação dos preconceitos e da superstição, e como caminho necessário para se chegar à verdade. Poucos foram os filósofos que conseguiram na vida pública e privada assim como na sua produção intelectual fazer uma junção tão integra e tão fortemente persistente da ética com a razão. Assim, a escolha do nome do meu personagem foi, além de uma homenagem ao filósofo Espinosa, uma afirmação de que o policial, assim como qualquer outro profissional, pode na sua prática cotidiana ser ético e fazer uso da razão em lugar de se deixar corromper e de empregar a violência física como meio de chegar à verdade.

Inspector Espinosa and the philosopher of the same name have ethics and a belief in the power of reason in common. These are atributes that are also present in the character Auguste Dupin, created by Edgar Allen Poe, who is considered the creator of the crime fiction genre in literature,  in MURDERS IN THE RUE MORGUE (1841)
I have great admiration for the philosopher Baruch de Espinosa’s (1632-1677) personal integrity as well as for his unshakable ethics and his belief in using the power of reason as a way of transcending prejudice and superstition and as the necessary way of arriving at  the truth.  There were few philosophers who managed in their public and  private lives to achieve this as whole and as as strongly persistent a fusion of ethics and reason. Therefore, the choice of my character’s name besides being a homage  to the philosopher Espinosa,  it was also an afirmation that the policeman as well as any professional can be ethical and can use reason in his daily work instead of allowing himself to be corrupted and to use physical force as a means of getting to the truth.

4. A parede de livros de Espinosa e uma metafora? Is Espinosa's  wall of books a metaphor?

A “estante só livros”, como Espinosa a chama, não é uma metáfora, é “real” [muito embora o leitor possa vê-la (ou lê-la) como uma metáfora do poder que a linguagem possui de se manter de pé sem necessidade de apoio na parede empírica]. A natureza pouco ortodoxa da estante de Espinosa assim como a quantidade inusual de livros que ele possui, principalmente em se tratando de um delegado de polícia, tem a ver com sua história pessoal. Ele sem dúvida não se enquadra no modelo estereotipado do policial grosseiro e truculento. É bem educado, calmo, fala mansa. Possui uma excentricidade em relação aos padrões policiais: gosta de literatura e freqüenta sebos do centro da cidade. Não é um erudito, tampouco um intelectual, apenas aprendeu a gostar dos autores de língua inglesa desde que começou a ler a pulp fiction que sua avó traduzia para o português e graças a qual os dois se mantinham sem ajuda de ninguém, mesmo porque, não havia mais ninguém. Espinosa cresceu em meio aos livros e em contato com os autores que a avó traduzia. A forma de sua “estante” é, por si mesma, uma indicação do caráter anárquico de sua relação com os livros e com a própria literatura.

The ‘nothing but books bookshelf ‘ as Espinosa puts it, is not a metaphor. It is real (although the reader may see it or read it as a  metaphor  the power the language has to  stand without the support af an empirical wall). The unorthodox nature of Espinosa’s  wall as well as the unusual number of books he owns, considering that he is a police inspector, has to do with his personal life. There is no question that he does not fit into the stereotypical model of  a rude and truculent policeman. He is cultured,  calm, soft spoken. He has a certain eccentricity, as the standards for policemen go. He likes to visit the used book stalls around the city. He is neither erudite nor an intellectual. He simply learned to like English language books, the pulp fiction his grandmother translated into Portuguese, a job thanks which they were able to support themselves without anyone’s help, especially since there was no one to help them. Espinosa grew up among books,  in contact with the authors of the books his grandmother translated. The form of his “bookshelf” is, in itself, an indication of the anarchic nature of his relationship with books and literature.

5. Que aspectos de seu trabalho no campo de da filosofia e da psicnálise entram em seus romances policiais? Which aspects of your work in the fields of philosophy and psychoanalysis come into your crime fiction?

5.    O romance policial, em que pese sua tradição de pulp fiction, possui traços fundamentais em comum com discursos mais nobres como os da Filosofia e da Psicanálise. Os três – e não apenas o romance policial – têm como ponto de partida um assassinato: no caso da filosofia, o assassinato de Sócrates, que impulsionou Platão a produzir um discurso que se colocasse contra os múltiplos dizeres dos poderosos; no caso da psicanálise, o assassinato do pai, mito freudiano da horda primitiva e do rei Édipo. Outra característica comum é que, tanto na filosofia e na psicanálise como no romance policial, o ponto de partida é a realidade sensível, a coisa singular, o “dado”, o acontecimento. Mas essa realidade sensível logo denuncia seu caráter de ilusão, e o “dado” vai se demonstrar como ilusório - porque distorcido.
O detetive, frente à cena do crime, encontra-se numa situação análoga ao habitante da caverna platônica, que toma por realidade as sombras projetadas na parede da caverna. As sombras, assim como os acontecimentos mundanos, não evidenciam toda a sua verdade, mas também não são puro delírio; a realidade é portadora de uma ambigüidade que faz com que ao mesmo tempo insinue e oculte a verdade. Frente ao caráter ilusório do fato, o investigador tem que suspeitar do dado como transparente portador da verdade. O filósofo, tanto quanto o psicanalista e seu paciente, da mesma forma que e o detetive do romance policial, empreendem a busca de uma verdade que está para além do dado imediato. Tanto no romance policial como na psicanálise e na filosofia o operador dessa passagem é o método.
E a palavra método em grego significa “investigação”, e aquele que faz uso do método é o investigador, que dependendo do caminho que percorre, poderá será um Platão ou um Descartes, como também um Philip Marlowe ou um Sam Spade. Contudo, as semelhanças entre os três campos não vão além. Aristóteles certamente não é hard-boiled, Dashiell Hammett/Sam Spade não tem qualquer pretensão metafísica, assim como a International Psychoanalytical Association não é a Agência Pinkerton de detetives... Para sorte de todos nós, amantes da Sophia tanto quanto do romance policial.

  Considering  its pulp fiction tradition, crime fiction, has fundamental traits in common with the  noblest discourses in Philosophy and Psychoanalysis.The three—and not just crime fiction—have a murder as a point of departure: in the case of philosophy, the murder of Socrates, which compelled Plato to produce a discourse that opposed  multiple sayings of the powerful; in the case of psychonalisys, the murder of the father, the Freudian myth of the primitive horde and of King Oedipus. Another common characteristic is that in philosophy and psychoanalysis as well as in crime fiction,  is  that the departure point is sensible reality. But this sensible reality soon reveals its character as an  illusion  and the “given”  shows itself to be illusory since it is distorted.

At the scene of the crime the detective  finds himself in a similar situation to that of the inhabitant of the platonic cave  who takes the shadows projected on the wall of the cave for reality. The shadows, as worldly happenings, do not evince their entire truth, but neither are they  pure fantasy. Reality carries an ambiguity that causes it to hint at  and hide the truth simultaneously.  Faced with the  illusory nature of facts, the investigator must question the given as a transparent carrier of the truth. The philosopher, as well as the psychoanalyst and his patient, in the same way as the detective, embark on on a search for a  truth that goes beyond the immediate given. In crime fiction,  as in psychoanalysis and philosophy, the agent of the transition is the method. 
The word method in Greek means investigation. He who makes use of the method is an investigator who, depending on the path he follows, can be a Plato or a  Descartes. He can also be a Phillip Marlowe or a Sam Spade. Nevertheless, similarities in these three fields do not go much further. Aristotle certainly is not hard-boiled. DashiellHammett/Sam Spade have no metaphysical pretensions nor is the Psychoanalytical Association The Pinkerton Detective Agency… luckily for those of us who are lovers Sophia as much as we are lovers of  crime fiction.  


6. Como explica a evolucao da linguagem  exuberante de tantos autores latinos a seu estilo quase espartano? How do you explain the evolution from the flowery language of so many Latin writers to you almost Spartan style? 

Foi uma direção deliberadamente imposta por mim aos meus escritos. Não houve uma passagem da “exuberância latina” para o “estilo espartano”, como você o batizou. Ele foi espartano desde o princípio.

That was a direction deliberately imposed by me in my writing. There was no transition from “Latin exuberance" to "Spartan style", as you called it. It was Spartan from the beginning.

7.  O que ha em seus livros de inalienavelmente brasileiro?  What is there in your books that is inalienably Brazilian?

O que há de inalienavelmente brasileiro em meus livros, além da língua em que eles são escritos, creio que é o Rio de Janeiro, cidade-ícone do Brasil, e particularmente o bairro de Copacabana, um microcosmo extremamente complexo que serve de cenário às histórias do delegado Espinosa. Há ainda o fato de eu ser nascido e criado no Rio de Janeiro, no bairro de Copacabana, cidade onde vivo até hoje e Copacabana um dos um dos bairros que mais freqüento. Disso surgiu uma intimidade absoluta com o bairro e uma relação amorosa com a cidade como um todo. Foi onde minha brasilidade começou a ser forjada e foi onde Espinosa também “nasceu”.

What there is of inalienably Brazilian in my books is that besides the language in which they are written, there is Rio de Janeiro, a city-icon  and particularly the Copacabana precinct, which is an extremely complex microcosm and which serves as background for Inspector Espinosa’s stories.  There is also the fact that I was born and raised in Rio, where I live and Copacabana, which is the  part of the city I visit most often. A loving relationship with the city and its suburb came about from this.  That is where my Brazilianess was shaped and that is also where Espinosa was born.

8.  Por que escolheu o genero de romances policiais? Why did you choose to write crime fiction?

  
  Porque os quase quarenta anos que precederam essa escolha foram dedicados à minha vida acadêmica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde dava aula na graduação e na pós-graduação, orientava pesquisas e teses, e coordenava um programa de mestrado e doutorado em Teoria Psicanalítica. E esse conjunto de atividades tomava todo o meu tempo. Tudo o que escrevi nesse período (oito livros, artigos...) foi referente a essQuando deixei a vida universitária e comecei a escrever ficção, na virada dos meus cinqüenta e nove para os sessenta anos, considerei que não teria tempo para grandes aprendizados, para longas preparações teóricas e para extensas tentativas. Eu nunca tentara escrever ficção. Quando meu primeiro livro de ficção foi publicado (e ganhou dois prêmios literários importantes), a pergunta que me fiz foi: Quanto tempo me resta de vida inteligente para continuar nessa empreitada? Longos romances exigem anos e anos para serem escritos. Daí a decisão de escrever novelas com histórias de menor espessura temporal e de menor complexidade e extensão espacial. Achei que as novela policial era o gênero que estava na medida da minha pretensão de autor de ficção. Isso, sem contar que sempre achei que a novela policial é uma espécie de apropriação e releitura da tragédia grega, assim como a tragédia grega é uma apropriação da narrativa mito-poética. O que me agrada.

Because nearly forty years that preceded this choice were devoted to my life as an academic at the Universiade Federal do Rio de Janeiro, where I taught graduate and post-graduate courses, directed theses and research and coordinated a masters and doctoral program on Psychoanalitic Theory. That  combination of activities took up all my time. Everything I wrote during that period ( eight book, articles) had to do with those academic activities.
When I left academia and began to write fiction, between the ages of  fifty-nine and sixty, I considered that I would not have time for long apprenticeships, theoretical preparations and extensive endeavors. I had never tried to write fiction. When my first book was published (it won two important literary prizes) the question I asked myself was this, how much time do I have  to continue this work? Long novel require years and years to be written. My decision to write less weighty novels of lesser temporal complexity and sense of place stems from that. I thought that the  crime novel is a kind of appropriation and rereading of Greek tragedy just as Greek tragedy is an appropriation of mytho-poetics, which pleases me.


9. Qual e a coisa melhor que pode ocorrer a um escritor? What is the best thing that can happen to writer?
Ser lido pelo público leitor e ser reconhecido pelos seus pares. Além, é claro, de ter seus livros na lista dos mais vendidos. Outra coisa muito boa de acontecer ao escritor é ver seus livros traduzidos em várias línguas e imaginá-los com capas e formatos diferentes nas mãos de leitores americanos, ingleses, franceses, alemães, espanhóis, italianos e de leitores tão distantes como russos e gregos. É uma experiência maravilhosa e ao mesmo tempo muito estranha, ter em mãos um livro de sua autoria publicado numa língua que você desconhece a ponto de não conseguir ler nem o título nem seu próprio nome.

To be read and to be recognized by his peers. Besides, of course, having his books on the bestseller list. Another very good thing to happen to a writer is to see his books translated into various languages and to imagine them in different formats and with different  covers in the hands of American, British, French, German, Spanish, Italian readers and faraway readers such as Rusians and Greeks. It is a marvelous and at the same time strange experience to hold in your  hands a book that you authored  and that was published in a language unknown to you to the point that you cannot read either its title or your own name.

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